4 dic. 2012 ~ ~ Etiquetas: ,

Alentejo: Contextos e objectos simbólico-religiosos do Porto Torrão: os ídolos e as placas de xisto



La siguiente información se ha obtenido de la página web de Neoépica, arqueologia e património:


Miguel Rocha , Paulo Rebelo, Raquel Santos, Nuno Neto

Resumo: A escavação em área dos sectores I e II do sítio do Porto Torrão (Ferreira do Alentejo) e as sondagens realizadas no sector III permitiram a recolha contextualizada de diversos ídolos e placas de xisto. A análise das características dos contextos de recolha e dos objectos permite-nos percepcionar a relação existente entre estes elementos, numa tentativa de definir os espaços de actuação e descarte dos objectos mencionados.


Abstract: The excavation in the area of sectors I and II of Porto Torrão (Ferreira do Alentejo) and the surveys carried out in sector III allowed the contextualized collection of various idols and slate plaques. The analysis of the characteristics of the contexts, and the objects collection, allow us to perceive the relationship between these elements in an attempt to define the performance and discard places of the mentioned objects.

Palavras-Chave: Calcolítico, Porto Torrão, Placas de Xisto, Ídolos

1. Introdução

O sítio arqueológico do Porto Torrão (Ferreira do Alentejo) foi alvo de duas fases de intervenção arqueológica, entre 2008 e 2010, que pretenderam avaliar e salvaguardar os contextos e estruturas arqueológicas a ser afectados pela construção dos canais de rega da EDIA. A Neoépica, Lda., para além de responsável pela 1ª fase do projecto, no decurso da qual se efectuaram onze sondagens de diagnóstico, teve a seu cargo na 2ª fase a execução dos trabalhos de escavação nos sectores I e II. Estes sectores revelaram um conjunto alargado de fossas que se mostraram documento de várias realidades contextuais, mas também níveis de ocupação, diversos interfaces, uma estrutura habitacional negativa, algumas estruturas positivas e duas secções de cada um dos dois fossos que circundavam o povoado.

Em alguns destes contextos encontraram-se materiais conotados com uma função essencialmente simbólica. Tendo em conta as perspectivas meramente histórico-materialistas, assiste-se a uma realidade cronologicamente enquadrável (salvo a escassa presença de exemplares de taças carenadas e placas de tradição neolítica) na tradição cultural do Calcolítico, numa fase coetânea com o início da produção e trabalho do cobre nos restantes povoados do sudoeste ibérico.

2. Descrição do corpo de dados em análise

2.1 Os Objectos

1. Pto/09.[1249].3368 – Placa de xisto gravada com organização à base de bandas de triângulos preenchidos por linhas oblíquas entrecruzadas (reticulado), com excepção de uma delas. A cabeça da placa é definida por dois olhos solares perfurados, encimados por duas «sobrancelhas» preenchidas com traços de tendência vertical; ao centro um elemento vertical (nariz?) também reticulado, associado a três bandas de tendência horizontal e preenchidas por traços verticais. O reverso também se encontra decorado com uma faixa reticulada circundante dos limites laterais e superior. Dimensões: comprimento 14,2cm; largura 13,3 a 8cm; espessura 1,1 a 0,4cm. Proveniência: Sector I – área I – [1249], enchimento da fossa [1250] (Fig. 1).

2. Pto/09.[1382].8251 – Fragmento de placa de xisto gravada com organização à base de faixas ziguezagueantes preenchidas, em intervalos, por linhas oblíquas entrecruzadas (reticulado), compartimentadas por um traço vertical. Dimensões: comprimento 8,2cm; largura máxima 4,5cm; espessura 0,45cm. Proveniência: Sector I – área J – [1382], enchimento da fossa [1374] (Fig. 2).

3. Pto/09.[1397].8362 - Fragmento de placa de xisto gravada com organização à base de bandas de triângulos preenchidos por linhas oblíquas entrecruzadas (reticulado). Dimensões: comprimento 4,1cm; largura máxima 2,3cm; espessura 0,8 a 0,25cm. Proveniência: Sector I – área J – [1397], enchimento da fossa [1402].

4. Pto/08-09.[398].2874 – Placa de xisto gravada com motivos desordenados na face anterior, feitos de forma tosca, representando linhas ziguezagueantes e outras rectas, paralelas entre si, parecendo formar um só elemento. A face posterior encontra-se preenchida por linhas ziguezagueantes na vertical e, no pólo superior, na horizontal. Encontra-se fragmentada nessa zona. Dimensões: comprimento 11,6cm; largura máxima 5,9 a 5,4cm; espessura 0,5 a 0,4cm. Proveniência: Sector III – sondagem VI – [398], enchimento da bolsa [397].

5. Pto/09.[3172].9441 – Conjunto de três fragmentos de placa/s de xisto gravada/s, um deles com uma perfuração de forma circular, sem organização discernível. Cada um dos fragmentos encontra-se bastante gasto e repleto de incisões. Dimensões: espessura 0,25 a 0,1cm. Proveniência: Sector III – sondagem VII – [3172], enchimento da bolsa [3092].

6. Pto/09.[3174].10484 - Fragmento de placa de xisto gravada com organização à base de bandas de triângulos preenchidos por linhas oblíquas entrecruzadas (reticulado). Dimensões: comprimento 4,15cm; largura máxima 2,7cm; espessura 0,3cm Proveniência: Sector III – sondagem VII – [3174], enchimento da bolsa [3092] (Fig. 3).

7. Pto/09.[1234].10462 - Ídolo com morfologia antropomórfica, trabalhado sobre falange de animal através do aplanamento da face interior e polimento total. Não apresenta decoração. Dimensões: comprimento 6,8cm; largura 4,5 a 2,85cm; espessura 3,4 a 1,95cm. Proveniência: Sector I – área H – [1234], enchimento do interface [1166] (Fig. 4).

8. Pto/09.[1234].10461 – Ídolo com morfologia antropomórfica, trabalhado sobre falange de animal através do aplanamento da face interior e polimento total. Não apresenta decoração. Dimensões: comprimento 7,55cm; largura 4,65 a 3cm; espessura 3,2 a 1,9cm. Proveniência: Sector I – área H – [1234], enchimento do interface [1166].

9. Pto/09.[1249].5317 - Ídolo com morfologia antropomórfica, trabalhado sobre falange de animal através do aplanamento da face interior e polimento total. Não apresenta decoração. Dimensões: comprimento 7,85cm; largura 4,9 a 3,1cm; espessura 3,5 a 1,9cm. Proveniência: Sector I – área I – [1249], enchimento da fossa [1250].

10. Pto/09.[1332].7657 - Ídolo com morfologia antropomórfica, trabalhado sobre falange de animal através do aplanamento da face interior e polimento total. Não apresenta decoração. Dimensões: comprimento 7cm; largura 4,5 a 3cm; espessura 3 a 1,85cm. Proveniência: Sector I – área J – [1332], depósito zona sul (Fig. 5).

11. Pto/08-09.[311].2832 - Ídolo com morfologia antropomórfica, trabalhado sobre falange de animal através do aplanamento da face interior e polimento total. Não apresenta decoração. Dimensões: comprimento 4,3cm; largura máxima 3,5cm; espessura 0,45cm. Proveniência: Sector III – sondagem IX – [311], enchimento fossa.

12. Pto/08-09.[3087].2342 - Ídolo com morfologia antropomórfica, trabalhado sobre falange de animal através do aplanamento da face interior e polimento total. Não apresenta decoração. . Dimensões: comprimento 7,3cm; largura 4,3 a 2,25cm; espessura 3,1 a 1,65cm. Proveniência: Sector III – sondagem VII – depósito [3087].

13. Pto/09.[138].765 – Fragmento da zona inferior e mesial de ídolo em cerâmica com feição antropomórfica. Dimensões: comprimento 4cm; largura 2,5 a 1,4cm; espessura 1,5 a 1,2cm. Proveniência: Sector I – área H – [138], depósito.

14. Pto/09.[138].766 – Fragmento de ídolo em cerâmica (?) possivelmente antropomórfico, denotando num dos lados esboço da silhueta. Dimensões: comprimento 6,45cm; largura 2,35cm; espessura 1,9cm. Proveniência: Sector I – área H – [138], depósito.

15. Pto/09.[1321].7433 – Ídolo em cerâmica com configuração antropomórfica. Apresenta tronco cilíndrico (exibindo seios), parte superior com duas saliências laterais e base espessa e oval. Dimensões: comprimento 6,3cm; largura 3,3cm (inferior), 1,4cm (mesial) e 3,05cm (superior); espessura 2,3cm (inferior), 1,3cm (mesial) e 1,3cm (superior). Proveniência: Sector I – área J – [1321], depósito na zona norte da área (Fig. 6).

16. Pto/09.[1349].8027 – Fragmento de ídolo em cerâmica com configuração antropomórfica. Revela nariz, olhos e seios. Dimensões: comprimento 7,1cm; largura 2,6cm (inferior), 2,55cm (seios) e 2cm (superior); espessura 1,4cm (inferior), 1,9cm (seios) e 2cm (superior). Proveniência: Sector I – área J – [1349], enchimento da fossa [1348] (Fig. 7).

17. Pto/09.[220].10414 – Fragmento da zona inferior e mesial de ídolo em cerâmica, com feições antropomórficas, apresentando vestígios de um dos seios. Dimensões: comprimento 2,9cm; largura 2,5 a 2,15cm; espessura 1,5 a 1,3cm. Proveniência: Sector II – área L – [220], depósito na zona norte da área.

18. Pto/08-09.[311].2832 - Fragmento da zona inferior e mesial de ídolo em cerâmica, com feições antropomórficas. Dimensões: comprimento 4,3cm; largura 3,8 a 2,05cm; espessura 2,25 a 1,5cm. Proveniência: Sector III – sondagem IX – [311], enchimento fossa [310].

19. Pto/09.[Sup].27 – “Ídolo-gola” em calcário, alongado, de forma cilíndrica com estrangulamento na extremidade superior. Dimensões: comprimento 6,35cm; diâmetro máximo 1,6cm; diâmetro mínimo 1,25cm. Proveniência: Recolha de superfície (Fig. 8).

20. Pto/09.[1249].3367 – Ídolo cilíndrico em calcário. Dimensões: comprimento 4,6cm; largura 1,7 a 1,3cm; espessura 1,6 a 0,8cm. Proveniência: Sector I – área I - [1249], enchimento da fossa [1250].

21. Pto/08-09.[301].783 – Fragmento de ídolo bétilo/cilindro em calcário com forma cilíndrica. Dimensões: comprimento 3,4cm; diâmetro 3,2cm. Proveniência: Sector III – sondagem V - [301], depósito.

22. Pto/08-09.[359].1493 – Fragmento de ídolo bétilo/cilindro em calcário com forma cilindríca. Dimensões: comprimento 3,4cm; diâmetro 3,2cm. Proveniência: Sector III – sondagem X - [359], enchimento da estrutura negativa [330] (Fig. 9).

2.2. Os contextos

1- Sector I – área H – depósito [138] e [1234], enchimento do interface [1166]

Na área H identificou-se uma intensa ocupação de fossas e outras estruturas negativas. Uma das camadas superficiais que cobriam esta realidade era o depósito [138]. A camada [138] continha alguns carvões e aglomerados de pedra calcária de grande e média dimensão sem conexão, assim como algum material arqueológico disperso. Uma das realidades que era sobreposta pelo depósito [138] foi o interface [1166].

O interface [1166] corresponde a uma estrutura negativa, de forma sub-circular, com cerca de 1,30m de diâmetro máximo e 1,05m de profundidade. O interface encontrou-se preenchido por vários depósitos. No enchimento [1234] detectou-se alguma cinza e grande quantidade de material cerâmico e osteológico, surgindo, ainda, restos de escória e vinte fragmentos de cadinhos. De uma forma geral, os enchimentos apresentam materiais que se enquadram naquilo que vem sido definido para contextos da 1ª metade do III milénio (Silva e Soares 1987; Silva, Soares e Cardoso 1995; Valera, 1998; Gonçalves 2003; Valera e Filipe 2006), aparecendo apenas duas taças carenadas (2,22%).


2- Sector I – área I - [1249], enchimento da fossa [1250]

O interface [1250] corresponde a uma estrutura negativa de formato sub-circular, paredes introvertidas e fundo plano, com cerca de 1,70m de diâmetro máximo e 1m de profundidade máxima. A fossa [1250] apresenta três níveis de enchimentos as camadas. Num nível intermédio da fossa encontrava-se o enterramento de mulher jovem em posição fetal, decúbito lateral – [1289]. A cobrir o corpo encontrou-se um conjunto de lajes e dormentes, na sua vez, cobertos pela camada [1249] – enchimento constituído por sedimento castanho-escuro, de consistência compacta e grão médio. Em termos cronológicos, na fossa de enterramento não se registou uma alteração daquilo que já foi referido para o anterior contexto.

3- Sector I – área J – depósito [1321/1332] e enchimentos de fossas [1349], [1382] e [1397]

A área J, em termos contextuais e cronológicos, apresenta realidades semelhantes às áreas H e I. Em concreto, várias estruturas negativas, positivas ou de combustão e até empedrados que documentam uma intensa ocupação do sítio durante o Calcolítico. Esta ocupação levou, em diversas ocasiões, à sobreposição e corte de várias realidades, uma situação que se desenvolve desde o estrato inicial.

Neste contexto, a camada [1321/1332] era coberta e cortada por diversas realidades. Este depósito constitui-se por sedimentos de coloração castanha escura, de consistência compacta e grão médio, com grande quantidade de material arqueológico. As realidades em fossa, que também documentaram objectos com personalidade simbólica, correspondem a estruturas negativas de formato ovalado, circular ou sub-circular, com cerca de 1,10 a 1,88m de diâmetro máximo e 30 a 80cm de profundidade máxima.

4- Sector II – área L – [220], depósito na zona norte da área.

Nesta área identificaram-se várias fossas com enchimentos de materiais típicos do Calcolítico. A camada [220] cobria uma destas entidades - a fossa [238].

5- Sector III – sondagem V – depósito [301] e camada [359], enchimento da estrutura negativa [330]

A escavação da sondagem V revelou uma estrutura habitacional e algumas fossas e outras estruturas negativas. A camada [301] constitui um depósito que cobria todos estes contextos, encontrando-se imediatamente sob a camada agrícola. De uma forma geral, estes contextos enquadram-se no Calcolítico inicial/pleno.

6- Sector III – Sondagem X – enchimento [359] da estrutura negativa [330]

Na Sondagem X do Sector III foram registados contextos de enchimento de uma estrutura negativa de grandes dimensões [330] (com cerca de 1,5m de profundidade e 3m de diâmetro máximo), cujos materiais apontam para uma ocupação do Calcolítico inicial/pleno. O enchimento [359] encontra-se num nível intermédio da estrutura tendo sido aí recolhido abundante material arqueológico.

7- Sector III – sondagem VI – [398], enchimento da bolsa [397]

A Sondagem VII revelou a presença de uma série de interfaces de estruturas em negativo, entre elas a estrutura [397], de formato circular e fundo irregular, cheia apenas pela unidade [398]. Este sedimento de cor castanha escura e consistência média forneceu grande quantidade de material arqueológico enquadrável no Calcolítico inicial/pleno.

8- Sector III – sondagem VII – depósito [3087] e [3172] e [3174], enchimentos da bolsa 3092

A fossa [3092] apresentava grandes dimensões, com 43 enchimentos distintos, dois buracos poste, uma estrutura de combustão e um murete constituído por pedras de pequena dimensão. Tem cerca de 3,30m de diâmetro máximo e 2,50m de altura. Os dois enchimentos analisados, em particular, documentam intromissões e inclusões de margas, cinzas e carvões. O depósito [3087], constituído por sedimentos de cor castanha-escura, consistência média e grão médio-grosso, cobria uma das fossas.

As taças carenadas surgem em várias das unidades, noutras desaparecem por completo. A camada [3172] apresenta o valor mais alto, com cerca de 11%. As formas fechadas, por vezes, também estão ausentes, principalmente em camadas menos volumosas. É evidente o domínio das formas abertas e de tradição calcolítica, com bordos espessados. Surgem igualmente, mas nem sempre, crescentes e placas de tear em termos cronológicos. Perante as evidências é possível pensar em diferentes ambientes culturais. Um primeiro do Calcolítico Inicial e um segundo do Calcolítico Pleno.

9- Sector III – sondagem IX – [311], enchimento fossa [310]

A Sondagem IX possibilitou a identificação de três estruturas em negativo, duas das quais, [314] e [310], se revelaram fossas com grande capacidade de armazenamento. A estrutura [310] é preenchida por três camadas de enchimento, sendo a primeira última delas a [311]. Trata-se de um enchimento composto por sedimento castanho escuro, de consistência compacta de onde se recolheu algum material artefactual, enquadrável no Calcolítico Pleno.

3. Análise e discussão dos dados.

A deposição dos objectos analisados deu-se em realidades contextuais díspares: desde depósitos a enchimentos de fossas/lixeiras (que podem ter sido usadas como silos) ou em recolhas de superfície, bem como, junto de um enterramento em fossa. Em todos os casos, segundo as perspectivas meramente histórico-materialistas, assiste-se a uma realidade cronologicamente enquadrável na tradição cultural do Calcolítico, com presença, em certos casos, de vários elementos ligados à metalurgia e de cerâmica de tradição neolítica.

Nos primeiros casos os ídolos, com excepção dos ídolos-falange e de um outro em cerâmica, e as placas de xisto surgem fragmentados. O seu contexto de recolha e a sua fragmentação enuncia-nos, assim, o local de descarte destes elementos que perderam o seu papel funcional na vida dos indivíduos e da comunidade, quer por causa da sua fragmentação, quer porque se tenham tornado obsoletos. A presença conjunta destes elementos com outros de uso diário como os recipientes e de restos faunísticos permite-nos conceber que não existiu uma segmentação do lixo, segundo critérios de valor social, religioso ou económico.

No que toca ao contexto funerário, a presença junto ao defunto de uma placa de xisto, um ídolo cilindro e de alguns ídolos falange, de várias espécies de conchas (uma das mais representativas amostras) e, talvez, de alguns utensílios ligados à tecelagem, assim como de vários recipientes cerâmicos que se encontravam em excelente estado de preservação, pode remeter-nos para a realização de um ritual religioso associado ao morto e ao espaço de deposição.

No que toca aos valores e características técnicas, os ídolos falange aqui apresentados foram realizados aproveitando a forma natural do osso a qual, através da abrasão, lhes confere uma forma antropomórfica. Estes encontram-se lisos, podendo porventura possuir algum tipo de motivo pintado (Almagro Gorbea 1973:25).

Por sua vez, os ídolos em cerâmica apresentam-se figurados com formas humanas: seios, nariz e/ou olhos. A presença destes três elementos verifica-se apenas num dos exemplares. A constância na protuberância dos seios remete-nos imediatamente para a consideração destas figuras como uma representação feminina.

No seu lugar, as placas de xisto apresentam-se, apenas com uma excepção, fragmentadas. Desta forma, não possuímos uma leitura completa da informação iconográfica que transportavam. Os fragmentos recuperados mostram motivos geométricos gravados por incisão, apresentando um deles gravuras toscamente executadas.

O exemplar completo provém da camada de enchimento da inumação de uma mulher jovem encontrada na fossa [1250], que se vê acompanhada de um ídolo falange, entre diversas outras peças que constituem o seu espólio. Os motivos do anverso desta placa são interpretados como representando uma simbologia própria da Deusa-Mãe, protectora dos mortos e portanto símbolo da vida (Almagro Basch 1959:275; Almagro Gorbea 1973:326) e os do reverso o friso de ídolo almeriense (Gonçalves 2003:260), uma teoria que tem sido alvo de crítica de vários autores que a consideram demasiado “essencialista” (Renfrew & Bahn 2008:225).

Os ídolos bétilo apresentam-se, em geral, com forma alongada e troncocónica (Almagro-Gorbea 1973:63). Os bétilos decorados, provenientes de outros contextos peninsulares, denunciam significados relacionados com a fecundidade (Almagro Gorbea 1973:63). No Porto Torrão, a fragmentação de dois ídolos em calcário não permite perceber, segundo a tipologia de M. J. Almagro-Gorbea, se estes corresponderiam às características dos bétilos ou dos ídolos cilíndricos. Em relação ao “ídolo gola”, apesar de cilíndrico, distingue-se destes por deter estrangulamento numa das extremidades.

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